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domingo, 15 de julho de 2012

Quando fui um Sem Abrigo...


Viver como sem abrigo nas ruas de Lisboa
Uma Noite como
sem abrigo

Acordei cedo… 

Eram umas cinco e meia da manha, todos dormiam...
Ao meu lado estava um homem deitado deve ter uns sessenta e tal anos, porque pouco durmo pela falta de sossego, e de consciência amarga, vi que este se levantou diversas vezes durante a noite, deve ter algum problema grave de saúde pois geme de dores enquanto se arrasta para aquela coisa a que chamam de casa de banho, o cheiro é horrível, são bem cerca de 300 homens e umas 100 mulheres a usar aqueles lavabos, é simplesmente grotesco e o ambiente é de cortar á faca .
 Ali encontra-se todo o tipo de gente ,desde pessoas que perderam as suas casas,  outros que saem da prisão e não têm para onde ir, prostitutas, alcoólatras, toxicodependentes, enfim toda a podridão e mais alguns que por coisas da vida ali foram parar, o cizento da cidade de Lisboa, aqueles que todos dias estão ao nosso redor ,sejam eles disfarçados ou até aqueles que muitas vezes preferimos não olhar. Emigrantes de todo lado,  uns melhores outros piores uns de famílias desconjugadas outros com historias para contar, mas, não passam disso mesmo, historias para contar,
 Antes de ir para este lugar deprimente e aterrador já tinha ouvido falar dele e fiz sempre tudo ao meu alcance para não ter que ir para lá, inclusive preferi os vãos de escadas durantes meses ou os jardins da Gulbenkian ou até mesmo paragens de autocarro, mas felizmente ou infelizmente acabei por ter que ir, a rua foi demasiado cruel para um betinho como eu.

 O frio cortava-me os pés e já não conseguia andar…
 A solidão era igual a um buraco sem fim que me consumia.


Durante a noite levantei a cabeça umas seis vezes …vi-o embrulhado naquele lençol gasto.
 – Caluda- ouve-se de outros menos sensíveis ou fartos de serem acordados durante a noite.
 Naquele quarto existem sete beliches de ferro enferrujado e com uma espécie de colchão que não são mais do que esponjas cobertas com um tecido velho e poeirento.
 Fico a pensar quantas pessoas já dormiram e morreram naqueles mesmo colchões, eu próprio assisti a outros morrerem de tuberculose e nunca ninguém mudou nada.
Num contexto normal deveriam queimar tudo o que estivesse estado em contacto com essa pessoa. Nunca antes me imaginei a pernoitar em tal sítio. Mas ali estou a acordar mais cedo que todos, e ponho-me a caminho da meu objetivo.
Só quero sair dali, só penso em sair dali, melhorar, ganhar corpo,  tapar as peles, preciso de me renovar afinal de contas já tinha feito isso e consegui enganar a tudo e todos, geralmente a pele dos toxicodependentes fica escura e criam covas na cara assim como os dentes apodrecem e mesmo que larguem os consumos nota-se bem que são o que são.
Tal e qual como eu sou o que sou.
Tive sorte, penso que Deus me ama tanto que me poupou-me dessa desfiguração dessa característica que muitas vezes nos define, sempre mantive o meu bom especto físico, claro se estiver limpo ou seja se não estiver a consumir.
Penso se realmente serei assim um homem de cicatrizes ou se sou de deitar para fora de vomitar o que me incomoda e por isso não ficar imprimido em minha tela as marcas da vida…talvez pela educação ou exemplos dos meus pais, talvez pela curiosidade de querer saber um pouco mais do que há, ou por medo, medo da morte, medo de desfiguração que retrata outros.
Naquele dia, naquela manha, enchi-me de coragem e  coloquei a mochila aos ombros, depois  coloquei uns ténis baratos que comprei nos chineses com o meu ordenado de part-time que havia arranjado á um mês atras, uns calções de supermercado e uma t-shirt velha que me deram no centro de sem abrigos, só me queria pôr bem, voltar a ter orgulho em mim, sair dali, e desta vez tinha que ser eu e só eu porque nem da esquerda nem da direita nem de cima nem de baixo vinha ajuda ou alento, ao fim ao cabo já á muitos meses que os meus pais nem ver me queriam.
 O que mais me doía, è que pouco via ou falava com o meu filho.
Não é que o meu filho não me amasse ou não quisesse falar comigo, não é porque tinha vergonha do que me havia tornado.
 Sabia bem que tinha chegado a um estado que mais baixo eu não poderia chegar, agora só tinha uma saída e era me levantar, nada mais havia a perder, só se fosse a vida, e tinha uma bênção muito preciosa que é de aproveitar pois muitos com atitudes mais pequenas do que aquelas que tive, não tem, a Liberdade, o não estar atrás das grades, depois de tudo o que fiz era lá que devia estar, ainda tenho pesadelos de coisas que fiz, muitas vezes fui detido por infrações que nem me passam pela cabeça o fazer quando agora limpo e sóbrio.


Eu sempre fiz tudo para ir aos extremos mas o facto é que nunca soube quando deveria sair do comboio até que descarrilei e amachuquei a tudo e a todos até ao dia, para mim houve o Dia e para ti? Até quando?



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