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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O que me tornou um toxicodependente ainda jovem


Bailei num falso feliz porque amava e sentia vontade de mais.





Nunca eu imaginei as voltas que ainda ia dar de "cavalo".


Aquele semblante angelical, de menino maroto mas sem maldade, até afável e simpático escondia pensamentos e vontades de arrepiar.

Se alguém Imagina-se as vezes que eu me achei poderoso e com nojo deste mundo e tudo e todos os que me rodeavam.
As vezes que eu desejava um terramoto na minha cidade e sentir o cheiro da morte ao meu redor ver o terror, o medo estampado no rosto das pessoas enquanto edifícios se desmoronavam em cima destas, enquanto cantava sobre os seus corpinhos frágeis e patéticos. 

As vezes que me imaginei a destruir apenas pelo prazer de fazer sofrer esta e aquela pessoa. Pessoas desconhecidas. Gente que mal algum me fez. Apenas os aniquilava com o meu olhar, como se raios saíssem de mim, como um vilão de livros de banda desenhada, o mau da fita. Sentia odio dentro de mim. Hoje consigo ver que era tudo menos uma criança normal.

As noites para mim eram lagos de lagrimas as vezes que encharquei a minha almofada de lágrimas com choros compulsivos invadido por uma tristeza quase insuportavel.

Hoje com quase quarenta anos de idade olho para traz e recordo-me dessa altura, quando tinha treze anitos e era o teenager mais triste do mundo. Ou pelo menos sentia-me assim.
Revoltado, cheio de odio e mágoa, destroçado, acabado, sem vontade de viver.

Esses pensamentos outrora meus, interiores, faziam-me sucumbir naquilo que parecia o Abismo dos Abismos, e eu nunca entendi porquê…porque me sentia assim.

Mas o facto é que este era o Miguel, este era aquele miúdo com carinha de anjo. Um revoltado, triste, quieto com más notas de aprendizagem e com Muito Bom a comportamento.

Por essa altura o meu mundo era negro e escuro, sombrio e o passado já marcava a minha existência.
Mas era interior não demostrava ao mundo o meu vazio o meu terror.
Às vezes tenho orgulho de mim, por tudo aquilo que consegui ultrapassar porque mesmo sendo interiormente destabilizado, tive controlo.


Querem ouvir o quê, sobre o abuso sexual? Ou sobre os maus tratos?
Querem que comesse por onde afinal? Ouvir como tudo começou?
Como me tornei assim?
Ou entro já a matar e falo-vos como é que a heroína e cocaína me foram apresentadas?

O fiasco da minha vida. Teria sido um bom título de livro, ou… O retrato do meu cansaço. Este que expõe tudo menos o que é positivo, abraçado num mundo de dor e de tremor constante.

A morte para mim era um desejo. Uma ambição. Enquanto ouvia de outros histórias de alegria, eu, ficava-me pelo silêncio e deitei-me com ela e desejei-a durante noites sem fim.
Afogava-me em soluços e adormecia em meio á dor e rancor, consumia-me a alma e arrastava-me no mais profundo mar de caos.

Perdi-me no que queria ser, pois não queria ser, queria morrer, criança mas nunca vivi como poderia eu viver se me sentia morto.

Contar a minha historia de vida ao pormenor, isso não.
Já o fiz enquanto internado em clinicas de doze passos, não tenho pachorra para isso.

Todo o meu percurso foi um desperdício de vida. Isso mesmo um desperdício.
A única esperança que me restava é que poderia mudar, e foi isso que me fez prosseguir.
O que me fez andar foi eu olhar e ver o sorriso de outras crianças e me imaginar a igual, tal qual essa possibilidade de um sorrir.

Mas o tempo foi passando e eu nunca melhorei pelo contrário, transformei-me num ser mediano, nem mau nem bom, uma coisa sem sal, estéril.
Interiormente lá bem no fundo a esperança …a vontade de salgar.

Continuei a empurrar a vida, continuei um pouco mais calmo de pensamentos negros a seguir em frente, a acreditar que podia ser melhor.

O passado deveria ser passado quando ele não reflete o presente, e o presente da altura era descobrir o que me havia tornado.

Muitos dos abusados abusaram, mas eu nunca o fiz, nunca sequer me passou pela cabeça, tinha tendências diferentes, procurava segurança e coisas impossíveis. 

E, em meio a ilusões vivi momentos prazerosos que não me arrependo.
Esta nova pessoa estava a tornear-se , e era melhor ser esta do que aquela que outrora os pensamentos macabros quiseram que eu fosse.
Mas, mesmo neste os meus caminhos eram errôneos e amadores. Amei, ou pensei que amei, e pensei que fui amado mas o que tinha eram momentos.
Mais abusos , agora permitidos por mim, conscientes, mas abusos.


Escondia o que era, ou o que odiava ser porque se outrora fui como um boneco nas mãos de quem deveria ser mãe, era inadmissível o que me tornara.


Escola já havia passado e a única coisa que ficou foram companhias da prata onde heroína escorria sobre esta e me acalmava a dor de quem era...

Mas o que eu queria era a anestesia, porque no final do ato quando puxava as calças para cima a única coisa que ficavam eram fluidos extra e pensamentos de derrota e abandono ligados aos que toda a vida vivi e não me largavam.

Fugir de mim mesmo seria essa a melhor solução? Foram tantas as vezes que pensei que fugia mas eu estava lá, eu era o ator do palco principal da minha existência. Fui para longe. Nunca tinha abandonado Lisboa, fui só e apenas para fugir. Fugir do estanho e da gota negra que me assombrava. Mas a única coisa que encontrei foi mais solidão e vazio.

Respostas para mim ainda não existiam, parece que estava a pagar por aqueles horríveis pensamentos que me assombraram quando jovem estupido. Como se uma maldição.


O Amor falso desapareceu, e nunca apareceu nenhum real, também não estava a procura disso, fiquei mais pela busca do anestético que me tapava a dor. E sempre que fazia um tubo para dar um bafo de opio era para mim uma vitória.

Só Deus sabe como me arrependo dessa maldita escolha, nunca eu imaginei, a sério. Nunca eu imaginei as voltas que ainda ia dar de "cavalo".voyagings:

Kwang Ho Shin

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